A “praga da maconha” no Brasil

As movimentações em torno da regulamentação do cultivo de Cannabis para fins científicos e medicinais no Brasil levanta uma série de questões a respeito deste grande mercado.  Uma das questões que tem sido levantada é: onde estão os agrônomos nesse processo de regulamentação?

Em todas as atividades que são fomentadas pelo tema estão sempre presentes uma série de ativistas, em grande parte composta pelas família de pacientes que utilizam derivados da Cannabis em seus tratamentos, pessoas da área jurídica, profissionais das áreas de biologia e ciências da saúde. No entanto, além de todas estas vertentes, é de suma importância lembrar que estamos falando de uma planta, independente da escala de produção analisada. E como tal, é imprescindível a presença dos profissionais das Ciências Agrárias  nestes debates, assim como nos planejamentos e acompanhamentos dos cultivos, para que estes estejam amparados por princípios técnicos.

    Uma das causas levantadas em relação ao distanciamento dos profissionais que estão diretamente relacionados ao tema é a falta de especialização na área durante a formação acadêmica. A proibição do cultivo no Brasil, mesmo  para fins científicos, traz consigo um empecilho na construção da ciência dos aspectos ligados à produção da planta. Muitos países desenvolvidos, principalmente da Europa e América do Norte, já possuem nos currículos de suas universidades cursos que abordam desde aspectos de cultivo, farmacológicos e medicinais, até questões jurídicas e de mercado.

Em 28 de agosto deste ano a renomada Revista NATURE trouxe a tona a discussão sobre o mercado de Cannabis, reforçando o potencial de crescimento deste mercado nos últimos anos e a carência de mão de obra especializada em diversas áreas. Isso porque nos países onde a regulamentação ocorreu recentemente a demanda foi surpreendente, superando as expectativas. Alguns países já trabalham no limite de sua produção sendo necessário importar produtos para suprir a demanda interna. E neste cenário toda mão de obra especializada mostra-se necessária.

    No entanto, o cultivo de Cannabis é cercado de mitos e conceitos que não possuem base científica. Isso ocorre pois o cultivo feito de forma ilegal muitas vezes fica restrito a práticas e saberes empíricos. Sendo assim, desperta a crença de que o cultivo de maconha seria totalmente resistente à seca, pragas, doenças e todas as variáveis que fazem parte do cotidiano das culturas convencionais. Com o intuito de esclarecer alguns pontos a equipe ADWA trouxe algumas informações técnicas sobre a dinâmica de pragas nos futuros cultivos de Cannabis no Brasil.

Primeiramente é necessário compreender que a manifestação de uma doença ou praga é mediado por três fatores principais: hospedeiro, patógeno e ambiente que juntos são conhecidos como o “triângulo da doença”. No Brasil estão presentes vários agentes patogênicos da Cannabis e apenas entre fungos, nematóides, vírus e bactérias, já foram registrados mais de 110 espécies que podem causar danos às plantas deste gênero no país.

Como o Brasil é um país agrícola, possui parte de sua agricultura modernizada e condições climáticas favoráveis ao cultivo de Cannabis, possibilitando a instalação desta nova commodity. Entretanto o clima predominante em grande parte do nosso território favorece uma gama de vetores que muitas vezes são diferentes dos existentes em países do hemisfério norte devido às diferenças edafoclimáticas. Devido a proibição, o hospedeiro não é abundante no Brasil o que por si só já tem grande influência na redução do desenvolvimento de patógenos e dificulta a observação do seu comportamento.

Com o aumento exponencial de hospedeiros surge uma rica fonte de alimentação para os diversos patógenos da cultura. Por isso não é tão simples a implantação deste mercado já que, se feito sem um acompanhamento técnico especializado, é possível introduzir diversos patógenos via material propagativo, além de favorecer os que já existem aqui.

Nossa equipe fez um levantamento entre as mais de 300 pragas relatadas pela literatura com potencial de causar dano às plantas de Cannabis e encontramos 12 pragas listadas como pragas quarentenárias no Brasil pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), sendo 5 insetos, 1 vírus, 2 nematóides e 4 fungos. Por serem possíveis pragas de espécies nativas e/ou cultivadas que possuem grande importância para a economia, o meio ambiente e a população em geral, as pragas quarentenárias são constantemente monitoradas pelo MAPA pois, embora ausentes ou restritas à algumas regiões, possuem potencial de causar grande impacto caso sejam introduzidas ou dispersas pelo país.

     As variedades existentes para produção de fibras são consideradas muito resistentes, sendo registradas baixas intensidades e severidade de danos causados por pragas. No entanto o cultivo com finalidade de produção de sementes e flores requer maior monitoramento devido aos padrões fitossanitários mais rígidos. As fases de florescimento e enchimento de grãos são as mais críticas pois, as condições edafoclimáticas nessa fase tem influência direta na produtividade.

Por serem pragas de culturas chave já existentes no Brasil como milho e soja, entre as pragas relatadas pela  literatura e que possuem grande potencial para causarem danos severos aos cultivos de Cannabis no país estão: percevejo verde (Nezaria viridula), as lagartas Helicoverpa sp. e Heliothis sp. e coleópteras como a vaquinha brasileirinha (Diabrotica speciosa), sendo as lagartas as pragas com maior potencial de dano à cultura.

Nem todos as pragas das quais a Cannabis pode ser hospedeira causam danos econômicos já que nem todas chegam a afetar significativamente a produtividade e a qualidade. É imprescindível o conhecimento técnico para realizar o planejamento do controle de pragas de forma correta. Desta maneira é possível evitar gastos desnecessários e principalmente manter a qualidade do produto e do ambiente onde os cultivos estão instalados. A Cannabis é considerada uma planta muito rústica, porém o cultivo em larga escala necessita de estratégias para reduzir o risco aos cultivos no Brasil já que, como visto, além da dinâmica das pragas no país ser bem diferente do que ocorre em outros locais, o nosso ambiente é favorável para pragas chave desta cultura que já estão presente no país ou podem ser introduzidas. Nos nossos próximos textos iremos abordar mais sobre as estratégias para o controle de praga e o manejo integrado destas.

 

Equipe ADWA Cannabis

Adwa Cannabis

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Uma empresa de desenvolvimento de pesquisas e tecnologias voltadas para a cadeia produtiva de Cannabis.