Plantas e mitos – parte III

Especiarias Asiáticas

Apresentamos em dois artigos anteriores, histórias sobre a proibição de algumas plantas, e seus produtos, que hoje são cultivadas em larga escala ao redor do mundo. Os meios políticos para a determinação do status legal de qualquer substância se repetem durante a história, vimos na edição passada desta série, que durante o período da colonização do Brasil também ocorreram casos de restrições para o plantio e consumo de algumas espécies vegetais.

Neste artigo, iremos mais uma vez relembrar um período da história de nosso país relacionada a proibição de plantas. Iremos abordar o recorte da chegada dos portugueses à costa brasileira, que ficaram vislumbrados com o novo mundo e surpreendidos com a riqueza ecológica de imensurável potencial.

Durante as primeiras tentativas de colonizar as regiões costeiras do Brasil, os portugueses trouxeram espécies de plantas e animais que já eram domesticados em Portugal ou em outras ilhas atlânticas de posse portuguesa. Estas primeiras introduções ainda não eram marcadas por interesses comerciais, mas sim pela inserção da cultura européia como uma forma de colonialismo, uma vez que não havia interesse em se apropriar da alimentação dos povos tupi, os quais os portugueses não conseguiam se adaptar. Este fato acarreta em consequências de grande alcance.

A introdução destas novas espécies vegetais e animais no território brasileiro propiciou novas fontes alimentares aos povos europeus que chegavam exponencialmente ao até então novo mundo. Isto deu abertura ao aumento da densidade populacional europeia em nosso país, que junto às novas espécies modificaram e simplificaram drasticamente os ecossistemas antes estabilizados na exuberante região neotropical.

Autores, como Alfred Crosby, propõe a ideia de um “imperialismo ecológico”, demonstrando que o domínio europeu sobre as terras brasileiras vai além do aspecto econômico humano, propondo que o sucesso destes aconteceu pela fácil proliferação das plantas, animais e  parasitas, que colonizaram os ecossistemas deste território de forma muito mais eficiente do que os próprios seres humanos.

Ao mesmo passo do imperialismo ecológico esteve o comercial. Laços com outros países europeus e asiáticos eram fortalecidos pelo açúcar, gado e outros produtos favorecidos pela mão de obra escrava dos povos originários do Brasil. Isto deu espaço ao rápido desenvolvimento da economia colonial e pós imperial da sociedade europeia que se instalou no novo mundo. Ainda, a ocupação dos portugueses no país tropical, acelerou o processo natural de adaptação de faunas e floras exóticas do continente americano, sobrepondo até os dias atuais o endemismo biológico que se iniciou na separação dos continentes em um período histórico muito remoto.

Eram exportadas madeiras de lei, óleos vegetais e animais, animais vivos, peles e penas de animais e pássaros, plantas medicinais, especiarias aromáticas, venenos, e outros produtos.

Com esse ciclo comercial português, vários países aproveitavam para realizar acordos comerciais com o povo lusitano, como por exemplo o mamão, mandioca, pitanga e caju que eram exportados para índia, mandioca, cará e batata-doce para África. O Brasil, recebendo o dendezeiro e o inhame.

Quando houve a invasão do Nordeste pelos holandeses, ocorreu a segunda dominação massal do ecossistema brasileiro, marcada pela rivalidade com os espanhóis, por exportar cacau para o Ceilão, atividade que já era realizada na Venezuela espanhola e também a rivalidade com os portugueses pela ousada decisão de cultivar especiarias asiáticas no território brasileiro, que desafiou o monopólio português da Companhia das Índias Orientais.

Neste mesmo período, no século XVII, as especiarias asiáticas eram formalmente proibidas no Brasil, realizada por uma política vigorosa de proibição pela disputa dos portugueses com os holandeses que tanto ameaçavam a colônia portuguesa. Neste período, o gengibre tem sua devida importância. Por ser uma destas especiarias, era estritamente proibido seu cultivo nas terras brasileiras.

Zingiber officinale

O gengibre é um rizoma subterrâneo, com sua peculiar picância e propriedades medicinais. É uma planta originária da ilha de Java, da Índia e China. Até depois da metade do século XVII, havia uma política vigorosa de proibição das especiarias asiáticas no Brasil, incluindo o gengibre. Porém, este vegetal se adaptou tão bem no Brasil, que foi impossível sua erradicação, tornando-se praticamente silvestre por quase todo o território até então dominado pelos europeus. 

Em 1671, os portugueses já não tinham tanta concorrência com suas colônias orientais, e os holandeses, até então ameaçadores para os portugueses, já não causavam mais tanto espanto. Neste ano, o rei sentiu-se seguro para pôr fim a esta política vigorosa proibicionista, assim, enviou um decreto com a permissão aos brasileiros de enviar à metrópole o Gengibre, para então sua comercialização.

Recebendo esta notícia, o governador e a Câmara Municipal do Rio de Janeiro, foram à Igreja Matriz e deram graças a Deus.

O gengibre se destaca por ser uma das únicas especiarias que sobreviveram extensamente à proibição. Em 1675, também foi recomendado por Duarte Ribeiro de Macedo, embaixador portugês em Paris, a popularização das especiarias no Brasil, acreditando ele que não havia mais nenhuma barreira para a adaptação destas espécies no território brasileiro.

A expectativa de lucrar com o plantio das especiarias asiáticas no Brasil, assim como na tentativa de desmanchar o comércio dos holandeses, então rivais, foram fatores necessários para sobrepor os custos e perigos de produzir estas plantas no país. O príncipe atual de 1677, solicitou então, ao governo de Goa, na Índia, sementes de pimenta, noz moscada, cravo, canela e por fim, gengibre. 

Cannabis

Sobre outra planta de origem asiática, a Cannabis também foi e é muito apreciada por suas características medicinais e alimentícias em diversos países ao redor do globo. Mas não no Brasil, onde a situação da mesma é politicamente proibida para a população, tanto para produção para fins de extrair compostos medicinais, tanto para alimentação humana e animal também o uso de suas fibras.

Atualmente, países que participaram da colonização do Brasil de forma direta ou indireta através da compra de matérias primas ou produtos exportados do novo mundo, aproveitam dos benefícios econômicos e sociais da Cannabis.

O continente asiático é onde se encontra o maior destaque econômico em relação a produção de Cannabis, apresentando um mercado estimado de $132,9 bilhões de dólares americanos, em seguida a América do Norte, com um mercado de $85,6 bilhões. Países que participaram diretamente na colonização do Brasil, como Portugal, Alemanha, Holanda, Espanha, apresentam lucros consideráveis com produtos provenientes das produções locais de Cannabis de cada um, a Europa como um todo apresenta um mercado estimado de $68,5 bilhões de dólares americanos.

Muitas vezes a população de um país colonizado é vedada de diversas informações que privilegiam os países que sustentam suas economias através de matérias primas privadas de sua produção nestes países historicamente colonizados. 

Entender a história das proibições de plantas, como o café e a erva mate, o gengibre e outras especiarias, durante o desenvolvimento das civilizações, é de extrema importância para refletirmos os motivos em todas as esferas que fazem uma planta como a Cannabis  ainda ser privada para suas diversas aplicações na vida do cidadão brasileiro.      

Referências:

http://www.iea.usp.br/publicacoes/textos/deanbotanicaimperial.pdf

Adwa Cannabis

Adwa Cannabis

Uma empresa de desenvolvimento de pesquisas e tecnologias voltadas para a cadeia produtiva de Cannabis.