A fibra da maconha

O mercado de fibras do cânhamo, plantas de Cannabis com baixo teor de THC, tem ganhando cada vez mais espaço devido a alta qualidade de suas fibras e a sua produtividade elevada quando comparado a produção do eucalipto e algodão que atualmente são as fontes mais utilizadas no Brasil. Depois da liberação da venda de medicamentos a base de Cannabis pela ANVISA, algumas empresas já têm entrado na justiça com o pedido do cultivo de Cânhamo. A empresa Schoenmaker Humako do Grupo Terra Viva havia conseguido uma liminar da Justiça do Distrito Federal para importar sementes para plantar e comercializar essa fibra industrial. A permissão teria validade limitada e o início de cultivo estava previsto para fevereiro. Porém a liminar foi cassada e o processo segue em andamento. Essa abertura começa a aquecer esse mercado de múltiplas possibilidades.

As fibras do cânhamo, que teve ampla utilização em todo mundo até a década de 30, são conhecidas desde a antiguidade por sua alta resistência e qualidade atribuídas a sua estrutura mais alongada quando comparado a fibras de algodão ou provenientes do eucalipto. Essas características fazem com que esse material tenham uma grande versatilidade de uso  somando mais de 25.000 aplicações conhecidas. Antigamente era muito utilizada para produção de roupas, velas de navio, cordas e redes de pesca e hoje seu uso se estende a produção de diferentes tecidos, papéis, utilizado na construção civil como isolante térmico e acústico, produtos alimentícios e até na produção de carros da Porsche. O óleo do cânhamo também é utilizado para composição de cosméticos, além de ser uma ótima fonte alternativa para produção de bioplástico e biocombustível. Seu uso também se estende a recuperação de áreas em processo de degradação. Devido a sua rusticidade o cânhamo pode ser usado na fitorremediação de solos contaminados, além de contribuir com o aporte de matéria orgânica e ajudando na estrutura química devido a ocupação de suas raízes. 

Em 1937, por motivos diversos como os interesses econômicos de concorrentes do mercado do cânhamo, aliado ao moralismo religioso e preconceito com as minorias, a planta passou a ser proibido nos Estados Unidos. Essa decisão influenciou fortemente diversos países no mundo, principalmente nas Américas. No Brasil, a história desse produto é longa. As fibras de cânhamo foram matéria prima para construção das velas dos navios que trouxeram os portugueses até aqui. No início da colonização a produção em terras brasileiras era inclusive incentivada pelos portugueses. O uso pelos índios e escravos era amplo e no fim do século XIX ela passou a ser receitada para enjoos, insônia, bronquite e asma. No entanto, aliado aos preceitos norte-americanos o Brasil também proibiu a produção de cânhamo por ser fortemente associada a cannabis com efeitos psicotrópicos. Ainda assim, o consumo de materiais com fibras de cânhamo é legalizado até os dias de hoje.

O uso na indústria têxtil já é realidade em países da Europa, na Índia e na China compondo vestimentas que vão desde o jeans, algumas malhas até os calçados mais variados que abrangem o mercado interno e também exportação. Estes produtos têm um forte apelo de marketing para grupos que apoiam seu uso. A fibra também pode ser combinada a outros produtos como seda ou algodão lhe conferindo texturas diversas o que mais uma vez amplia sua possibilidade de uso. Para a produção de papel a fibra tem uma saída maior, no Brasil, na indústria de papéis para confecção de cigarros, mas também é uma alternativa a celulose do eucalipto na composição de outros tipos de papéis que já é usado em alguns países. 

A aplicação do cânhamo na construção civil é uma inovação que teve uma grande adesão. A alta qualidade das placas construída com as fibras extensas, flexíveis e resistentes faz delas uma grande inovação no isolamento térmico e acústico com um preço equiparável aos materiais convencionais no exterior. No Brasil, devido a proibição de produção no mercado interno seu preço fica mais caro devido aos custos de importação.

A produção do cânhamo também tem um forte apelo de sustentabilidade devido a sua rusticidade e grande resistência a pragas e doenças, tendo consecutivamente uma menor necessidade de aplicação de herbicidas, pesticidas e inseticidas, reduzindo o impacto ambiental e os custos produtivos. O cânhamo também possui uma menor necessidade de água e uma maior resistência a intempéries climáticas quando comparado ao algodão, além de ter uma maior absorção de Carbono por área o que faz com que sua produção de fibra seja 200% maior quando comparado ao algodão e também um menor ciclo de produção em média.

O Brasil possui extensas áreas com aptidão para o cultivo do cânhamo e com o início da abertura deste mercado aumenta a necessidade de pesquisas para aperfeiçoar o cultivo em solo brasileiro. A atual proposta de lei para cultivo de cannabis medicinal e cânhamo industrial (PL 399/2015) prevê a liberação dos cultivos destas variedades no Brasil, o que voltou a aquecer o mercado. O cânhamo apesar de ser uma variedade da Cannabis, apresenta uma concentração menor que 0,3% de THC (substância responsável pelos efeitos psicotrópicos) de modo que inviabiliza seu uso recreativo atendendo as normas internas. Sua produção pode ser muito interessante para o agronegócio brasileiro, principalmente para atender a indústria têxtil e da construção civil em termos não só econômicos, mas principalmente ambientais no que tange a sustentabilidade.

 

 

Equipe ADWA Cannabis

Adwa Cannabis

Adwa Cannabis

Uma empresa de desenvolvimento de pesquisas e tecnologias voltadas para a cadeia produtiva de Cannabis.